do lugar

Para Proust o amor são os espaços e os tempos tornados sensíveis ao coração. Nos últimos tempos tenho sentido que os espaços aonde estou me são completamente insípidos. Ir ao trabalho, trabalhar, voltar para a casa, e nas horas livres me divertir nas formas designadas neste espaço para me divertir. Mas não amo este espaço, e entendo aqui amor em um sentido mais lato, o de algo nas imagens compostas das coisas a minha volta atraírem de alguma forma mais profunda a minha atenção, assim como os equipamentos à minha disposição para os mais diferentes tipos de uso. Lembro-me de quando era criança, quando estas coisas me fascinavam. Os ladrilhos de um caminho, em sua disposição, me atraíam para uma marcha mais detida de cabeça baixa, no que qualquer pessoa que passasse poderia supor que tratava-se de um menino autista. Mas mais do que isso, em todo espaço havia um lugar especial. Um banco favorito diante de uma imagem que nunca me cansava, por exemplo. Gosto de viajar, e da descoberta dos espaços que desbravo com meu olhar. Mas por mais que tais lugares sejam deliciosos em sua novidade, eles não o são porque têm em mim um cativo. Espaços cativadores, é isso que busco, mas acima de tudo o resgate da minha sensibilidade que imputava àquela delimitação de lugar, de matéria, o estatuto de cativador. Sem deixar de ser uma pessoa introvertida perdi o melhor da introversão. Preciso reconstruir isso, mesmo saber ao certo o que há de menos em mim com esta perda. Ou de mais.

Fonte: http://enfiteuse.blogspot.com/

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