Compartimento interno
Porque tem coisas de você que eu nunca escrevo. E quero. Mas tenho medo de errar. Também tenho medo de perder os arquivos dentro da minha cabecinha tão desorganizada. Esse vento todo dentro dela é bem capaz de soprar até abrir gavetas e portas, sacudir tudo, remexer. Escrever seria um modo de te guardar diferente. Guardar por fora, além de dentro. Me pintar da tua cor. Essas coisas que eu não digo de você e de mim, desarticulando fatos, articulando mentiras, enganando a ficção, colando sêlos com a língua na pele dos envelopes. Essas coisas. Como aquele dia em que eu me disfarcei de bilhete para que você me levasse no bolso. E fui contigo. Uma noite inteira a te beliscar a bunda. E você sorria, mas ninguém sabia que era eu ali por dentro do teu riso e da tua boca.
Cópia da chave
Tenho um teclado diferente. Demoro-me para encontrar til e trema. Sinto falta do teclado numérico. Sei que me acostumo rápido. Importante mesmo é ter a ponta dos dedos em ritmo normal. Ocupo espaço menor. A ausência do mouse não chega a ser castigo. Bom este trecho de chão onde posso fechar a porta e ficar dentro de mim por longas horas de silêncio ou de música alta. Trouxe poucos livros comigo. Não trouxe medo. Só espanto. Tenho perguntas, mas nem tantas dúvidas. Mania de confirmações. Conduzem-me olhos marinhos, conversas na feira, legumes frescos, neblina nas montanhas, recortes de conversas nas calçadas de babel. Letras no post it grudando amores. Chego soltando as sacolas pelo chão. Persigo as palavras até o travesseiro. Um desenho verde-limão nos meus arrepios de janeiro. Abraço o concreto depois da escadaria. Há tanto tempo me espera. Há tanta dor nos seus braços! Estátua de sal. Caminhos de sol. Salada de rúcula para ficar mais bonita. Bolinho de bacalhau para ser mais feliz no botequim. Sentado junto ao piano, o homem toca profecias conhecidas. Na pele. Vai ser minha. Ele não diz, mas os poros escutam. Quando canso de andar pelos meus sonhos, chamo um táxi pelo lado errado da rua. Ele pára, por gentileza. Quem sabe por amor. Vamos para casa, então. Ela é minha. No fim da rua, antes da praça, depois do sinal. Guardamos o troco e o pensamento. Tenho um porteiro surdo, um jeitinho na chave, um lugar para voltar ou apenas para estar. Enquanto durmo.
na estação
Se eu fosse falar de ti, começaria por aquele momento de abrir-se a porta da sala, depois de subir os três lances da escadaria do velho prédio da São Vicente. Uma amiga convidava a entrar, mas a recepção era feita de muitos brinquedos coloridos esparramados pelo parquê brilhante de sinteco. E os teus cachos negros. E os teus enormes óculos. E o teu riso. E as tuas botinas ortopédicas. Lá estava o guri. Cinco anos, tinhas? Não tenho certeza, os números nunca foram minha praia. Tu, sim, eras bom com eles. Um bom começo aquele, não foi? Um bom começo para as minhas intenções de tomar-te emprestado como irmão. Depois é que a nossa relação enfrentou crises. Como naquele dia em que eu tinha prometido tomar conta das crianças para a família fazer compras. Fazia frio e eu tricotava algum pulôver importantíssimo. Senti o deslizar apressado das agulhas abandonando os pontos. Eram teus dedos. E não adiantou eu correr e gritar pelos corredores. Num instante as agulhas voavam pela janela. Eram teus dedos. Finos e graciosos que mais tarde brincariam de tocar violão. Mas a delicadeza ainda não morava nos teus pés vestidos em pesadas botinas e nem imaginavas o quanto minhas canelas sentiam aqueles chutes "de brincadeira". Rias das minhas faíscas nos olhos e das minhas promessas de vingança. Ora veja, eu marmanjona, choramingando por agulhas e botinas. Fazias bem em rir. Se eu não fosse tola, teria aproveitado melhor o teu riso. O guri cresceu. Pode não parecer, mas eu também. E começamos esses ensaios adultos e inevitáveis das partidas. Nunca perdi o irmão, eu sei.
Não era ainda a última vez naquele final de tarde. Estressante, a princípio, eu lembro, embora fossem apenas uns poucos nós que através dos teus dedos ágeis iam-se desfazendo. Eu tinha ficado triste. De uma dor que eu não queria que fosse vista nem sentida por ninguém. Estava arrumando as minhas coisas para uma dessas despedidas. E brincavas comigo. Uma sombra do teu rosto na claridade avermelhada da janela fazia perguntas difíceis. Sempre eram revestidas de um interesse genuíno. Eu, tentando te convencer de minha despreocupação, apanhei o vidro de esmalte e resolvi pintar as unhas antes de ir. Evitava teus olhos grandes. Tinhas uma dúvida: por que eu pintava oito unhas antes de pintar as unhas dos polegares? E me fazias rir antes de responder. E depois me fazias acreditar que era importante saber a resposta. Caiu a noite antes do teu abraço amigo. Eu ainda acenei na porta e prometi que nos veríamos.
A última vez deve ter sido num verão difícil, quando a vida me estrangulava. Mas eu não te disse. Pediste licença para usar o telefone. Precisavas de algumas informações sobre vôos, telefonaste para algumas companhias aéreas. Ensaios de despedidas. Quase meio-dia. Caminhamos juntos até a esquina porque eu precisava ficar no ponto de ônibus e precisavas continuar caminhando para resolver algumas coisas importantes. Se eu fosse falar sobre meu último olhar sobre tua vida, talvez fosse assim como o olhar de uma mulher míope sentada à sombra, observando o ir-se lento de um rapaz de cabelos negros ao sol, atravessando a avenida, atravessando o riacho, atravessando os dias, atravessando as pessoas com perguntas, com sorrisos, com agilidade. Estranho é esta extravagante impressão gravada em meus olhos desde a manhã deste dia nublado. Eu não sei mais falar de ti sem ver-te misturando os cachos negros com o colorido dos brinquedos por um chão brilhoso de risos. Tua imagem me convida sempre a pensar em chegadas, mesmo ensaiando as partidas.
Fonte: http://aneaguirre.blogspot.com/
Porque tem coisas de você que eu nunca escrevo. E quero. Mas tenho medo de errar. Também tenho medo de perder os arquivos dentro da minha cabecinha tão desorganizada. Esse vento todo dentro dela é bem capaz de soprar até abrir gavetas e portas, sacudir tudo, remexer. Escrever seria um modo de te guardar diferente. Guardar por fora, além de dentro. Me pintar da tua cor. Essas coisas que eu não digo de você e de mim, desarticulando fatos, articulando mentiras, enganando a ficção, colando sêlos com a língua na pele dos envelopes. Essas coisas. Como aquele dia em que eu me disfarcei de bilhete para que você me levasse no bolso. E fui contigo. Uma noite inteira a te beliscar a bunda. E você sorria, mas ninguém sabia que era eu ali por dentro do teu riso e da tua boca.
Cópia da chave
Tenho um teclado diferente. Demoro-me para encontrar til e trema. Sinto falta do teclado numérico. Sei que me acostumo rápido. Importante mesmo é ter a ponta dos dedos em ritmo normal. Ocupo espaço menor. A ausência do mouse não chega a ser castigo. Bom este trecho de chão onde posso fechar a porta e ficar dentro de mim por longas horas de silêncio ou de música alta. Trouxe poucos livros comigo. Não trouxe medo. Só espanto. Tenho perguntas, mas nem tantas dúvidas. Mania de confirmações. Conduzem-me olhos marinhos, conversas na feira, legumes frescos, neblina nas montanhas, recortes de conversas nas calçadas de babel. Letras no post it grudando amores. Chego soltando as sacolas pelo chão. Persigo as palavras até o travesseiro. Um desenho verde-limão nos meus arrepios de janeiro. Abraço o concreto depois da escadaria. Há tanto tempo me espera. Há tanta dor nos seus braços! Estátua de sal. Caminhos de sol. Salada de rúcula para ficar mais bonita. Bolinho de bacalhau para ser mais feliz no botequim. Sentado junto ao piano, o homem toca profecias conhecidas. Na pele. Vai ser minha. Ele não diz, mas os poros escutam. Quando canso de andar pelos meus sonhos, chamo um táxi pelo lado errado da rua. Ele pára, por gentileza. Quem sabe por amor. Vamos para casa, então. Ela é minha. No fim da rua, antes da praça, depois do sinal. Guardamos o troco e o pensamento. Tenho um porteiro surdo, um jeitinho na chave, um lugar para voltar ou apenas para estar. Enquanto durmo.
na estação
Se eu fosse falar de ti, começaria por aquele momento de abrir-se a porta da sala, depois de subir os três lances da escadaria do velho prédio da São Vicente. Uma amiga convidava a entrar, mas a recepção era feita de muitos brinquedos coloridos esparramados pelo parquê brilhante de sinteco. E os teus cachos negros. E os teus enormes óculos. E o teu riso. E as tuas botinas ortopédicas. Lá estava o guri. Cinco anos, tinhas? Não tenho certeza, os números nunca foram minha praia. Tu, sim, eras bom com eles. Um bom começo aquele, não foi? Um bom começo para as minhas intenções de tomar-te emprestado como irmão. Depois é que a nossa relação enfrentou crises. Como naquele dia em que eu tinha prometido tomar conta das crianças para a família fazer compras. Fazia frio e eu tricotava algum pulôver importantíssimo. Senti o deslizar apressado das agulhas abandonando os pontos. Eram teus dedos. E não adiantou eu correr e gritar pelos corredores. Num instante as agulhas voavam pela janela. Eram teus dedos. Finos e graciosos que mais tarde brincariam de tocar violão. Mas a delicadeza ainda não morava nos teus pés vestidos em pesadas botinas e nem imaginavas o quanto minhas canelas sentiam aqueles chutes "de brincadeira". Rias das minhas faíscas nos olhos e das minhas promessas de vingança. Ora veja, eu marmanjona, choramingando por agulhas e botinas. Fazias bem em rir. Se eu não fosse tola, teria aproveitado melhor o teu riso. O guri cresceu. Pode não parecer, mas eu também. E começamos esses ensaios adultos e inevitáveis das partidas. Nunca perdi o irmão, eu sei.
Não era ainda a última vez naquele final de tarde. Estressante, a princípio, eu lembro, embora fossem apenas uns poucos nós que através dos teus dedos ágeis iam-se desfazendo. Eu tinha ficado triste. De uma dor que eu não queria que fosse vista nem sentida por ninguém. Estava arrumando as minhas coisas para uma dessas despedidas. E brincavas comigo. Uma sombra do teu rosto na claridade avermelhada da janela fazia perguntas difíceis. Sempre eram revestidas de um interesse genuíno. Eu, tentando te convencer de minha despreocupação, apanhei o vidro de esmalte e resolvi pintar as unhas antes de ir. Evitava teus olhos grandes. Tinhas uma dúvida: por que eu pintava oito unhas antes de pintar as unhas dos polegares? E me fazias rir antes de responder. E depois me fazias acreditar que era importante saber a resposta. Caiu a noite antes do teu abraço amigo. Eu ainda acenei na porta e prometi que nos veríamos.
A última vez deve ter sido num verão difícil, quando a vida me estrangulava. Mas eu não te disse. Pediste licença para usar o telefone. Precisavas de algumas informações sobre vôos, telefonaste para algumas companhias aéreas. Ensaios de despedidas. Quase meio-dia. Caminhamos juntos até a esquina porque eu precisava ficar no ponto de ônibus e precisavas continuar caminhando para resolver algumas coisas importantes. Se eu fosse falar sobre meu último olhar sobre tua vida, talvez fosse assim como o olhar de uma mulher míope sentada à sombra, observando o ir-se lento de um rapaz de cabelos negros ao sol, atravessando a avenida, atravessando o riacho, atravessando os dias, atravessando as pessoas com perguntas, com sorrisos, com agilidade. Estranho é esta extravagante impressão gravada em meus olhos desde a manhã deste dia nublado. Eu não sei mais falar de ti sem ver-te misturando os cachos negros com o colorido dos brinquedos por um chão brilhoso de risos. Tua imagem me convida sempre a pensar em chegadas, mesmo ensaiando as partidas.
Fonte: http://aneaguirre.blogspot.com/
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