Antonio Augusto Ferreira

Você não abra mais o seu sorriso
porque eu posso pensar que foi para mim.
Da outra vez me veio sem aviso
e então meu coração ficou assim.
Foi um girar de céu e me bateu na alma,
me envenenou o sangue, me atingiu em cheio,
e eu fiquei perdido e me sumiu a calma,
me tremeu a base e me rachou no meio.
Este andar de bobo, esta barriga fria,
esta judiaria de esperar, querendo...
E o engolir palavras, me fazer de mudo,
e o sonhar com tudo, mesmo nada tendo.
Foi você chegar e me parei aceso,
foi você sorrir e me cristalizou;
me frouxou as pernas, me secou a boca,
me molhou a roupa e me petrificou.
E foi você partir, e meu melhor pedaço
se quebrou em cacos e se foi pro ar.
Agora não me tente, irresponsavelmente,
que eu preciso tempo pra me remendar.
(FERREIRA, Antônio Augusto. Porto Alegre: Renascença, 1997. p. 82.)


Veterano
Está findando meu tempo
a tarde encerra mais cedo
meu ombro ficou pequeno
e eu sou menor do que penso.
O bagual tá mais ligeiro,
o braço fraqueja às vezes
demoro mais do que quero,
mas alço a perna sem medo.
Encilho cavalo manso,
mas boto laço nos tentos.
Se a força falta no braço,
na coragem me sustento.
Se lembro o tempo de quebra,
a vida volta pra trás.
Sou bagual que não se entrega
assim, no mais.
Nas manhãs de primavera,
quando vou parar rodeio,
sou menino de alma leve
voando sobre o pelego.
Cavalo do meu potreiro
Mete a cabeça no freio.
Encilho no parapeito,
mas não ato nem maneio.
Se desencilho, o pelego
cai no banco onde me sento.
Água quente e erva buena
para matear em silêncio.
Neste fogo onde me aquento,
Remoo as coisas que penso.
Repasso o que tenho feito
para ver o que mereço.
Quando chegar meu inverno,
que vem branqueando o cerro
vai me encontrar venta aberta
de coração estreleiro
mui carregado de sonhos
que habitam o meu peito.
E que irão morar comigo
no meu novo paradeiro.
(Antonio Augusto Ferreira/Ewerton Ferreira)

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